Ativistas pró-Palestina queixam-se que foram agredidos por um grupo de seis pessoas com capacetes de mota.

Os episódios de violência terão ocorrido em três das vigílias diárias que se têm realizado na Praça Humberto Delgado, em frente a Câmara Municipal do Porto. “Foram sempre as mesmas seis pessoas, que chegaram ao local em dois carros de matrícula francesa. Eram todos muito novos e não falavam em língua portuguesa, pelo que ninguém entendeu o que eles disseram durante as agressões”, conta Elisabete Afonso Lopes, dirigente da Rede Unitária Antifascista (RUA), uma das promotoras das vigílias.

O relato é corroborado por Vasco Santos, também dirigente da RUA e candidato do Movimento Alternativa Socialista às eleições europeias de 2019. “Além das agressões, eles tentavam tirar as bandeiras pró-Palestina dos ativistas.”

Segundo estes dois dirigentes, a chegada dos agressores aconteceu sempre ao final da noite, altura em que as ações de solidariedade estavam a terminar. “Eles apareceram em horas diferentes, quando estavam menos manifestantes na rua e as pessoas se dispersavam”, salienta Elisabete Afonso Lopes. Os ataques terão sido feitos sempre de forma muito rápida e nem deram tempo às vítimas para reagir. “Pouco depois de lá chegarem, os atacantes fugiram nos mesmos dois carros.” Apesar de serem agredidas com capacetes, nenhuma das pessoas que foi alvo de violência teve necessidade de ser hospitalizada.

A mesma dirigente acrescenta que o grupo pró-Palestina já avançou com uma queixa às autoridades e o Expresso sabe que o caso está a ser alvo de “bastante atenção” das polícias.

De acordo com informações obtidas junto de pessoas que estiveram no local, haverá mesmo um vídeo com imagens de alguns desses agressores.

A Rede Unitária Antifascista partilhou esta segunda-feira nas redes sociais fotografias das matrículas dos dois carros conduzidos pelos agressores: um Mercedes Smart e um Mini Cooper. “Procuramos toda e qualquer informação sobre a localização e os donos dos dois carros na foto, que pertencem a elementos do grupo de agressores. Podem mandar por mensagem privada.” E acrescentam: “Não nos deixaremos intimidar nem calar.”

Em Portugal, este será o primeiro caso de violência no espaço público relacionado com o conflito em Israel desde o ataque terrorista do Hamas, a 7 de outubro.

Redes sociais antissemitas

Em sentido contrário, tem crescido o número de ofensas antissemitas nas redes sociais, segundo fontes das forças e serviços de segurança.

O Expresso detetou pelo menos dez grupos de ódio portugueses espalhados pelo Telegram, Facebook, Instagram, YouTube e TikTok. Destaca-se um vídeo em que se vê uma mulher a rasgar a bandeira de Israel com uma faca no centro de Jerusalém. Há também quem partilhe diagramas com a Estrela de David associada aos movimentos comunistas, ao Black Lives Matter e a consumidores de marijuana. E não falta um jogo em que um avatar aponta uma pistola a vários rabinos, oferecendo-lhes depois dinheiro.

Nos próprios comentários do site da Embaixada de Israel em Portugal há quem deixe com alguma regularidade mensagens contra o povo judeu, a pretexto do atentado. “Não vão voltar a dançar! Estão a matar inocentes indefesos! Israel vai desaparecer”, escreveu esta semana Carla R.

Logo após o negro 7 de outubro, o muro e o portão da sinagoga do Porto foram alvo de pichagens com mensagens “Libertem a Palestina”. Poucos dias depois, a PSP anunciou que iria reforçar a segurança às sinagogas e à embaixada de Israel em Lisboa.

Dia 9, dois dias depois do atentado que matou mais de 1400 pessoas em Israel, as forças e os serviços de segurança reuniram-se no âmbito da Unidade de Coordenação Antiterrorismo (UCAT), o órgão de coordenação e partilha de informações.

Nessa reunião da UCAT, que como sempre tem a coordenação do secretário-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), Paulo Vizeu Pinheiro, os principais dirigentes das autoridades portuguesas expressaram as suas preocupações sobre a escalada de violência no Médio Oriente e as implicações que o conflito pode ter em Portugal. “Foi feita uma avaliação geral do contexto emergente de uma nova guerra”, resume um alto responsável policial que pediu o anonimato.

Duas fontes próximas do processo confirmaram ao Expresso que uma das principais decisões retiradas do encontro foi a do reforço da segurança em infraestruturas críticas, bem como em locais de culto e espaços públicos. Um processo que está a ser agora acertado entre as várias forças e serviços de segurança.

Portugal tem identificadas 150 infraestruturas críticas, como sublinhou José Luís Carneiro, ministro da Administração Interna, em maio do ano passado no Parlamento. São elas os aeroportos, centrais elétricas, barragens, caminhos de ferro, portos e todos os locais relacionados com pontos de decisão do Estado.

O Expresso sabe que muitas dessas infraestruturas críticas são neste momento alvo de uma segurança “reforçada, mas discreta”.

Na última sexta-feira, dia 19, o SSI determinou a subida da ameaça terrorista que passou de “Moderada” para “Significativa”. Hugo Costeira, presidente do Observatório de Segurança Interna, explica que esta subida do grau de segurança serve para que as forças de segurança readaptem o seu modelo de policiamento.

“Aquilo que vamos sentir como cidadãos é uma presença mais constante da polícia na rua. Vamos ter mais ações Stop, mais ações de fiscalização, principalmente em espaços onde se congrega muita gente, como festas ou concertos”, disse na SIC Notícias. Mas também em manifestações de carácter político ou social, para proteção dos direitos constitucionais como da integridade física das próprias pessoas que participam nesses eventos.

Em Espanha tem havido alguma perturbação entre ambas as comunidades e o presidente do Governo espanhol acabou por se encontrar com representantes de ambos os lados. Por cá, a comunidade palestiniana é reduzida, tendo, por seu lado, o embaixador israelita, Dor Shapira, encetado atividades diplomáticas bastante intensas, com presenças regulares em meios de comunicação social. A nível político, tem havido encontros do ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, com o embaixador israelita, mas também com os congéneres israelita e palestiniano. “O diálogo é intenso”, diz ao Expresso.

Com Liliana Valente hfranco@expresso.impresa.pt

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