Há quatro anos, o conhecido cirurgião cardíaco João Queiroz e Melo decidiu cometer uma ação clandestina no hospital onde trabalhava. Não, não roubou malas. Pegou em quilos de blue wrap descartado, um pano usado em grandes quantidades nos hospitais e que, apesar de esterilizado e inócuo, tem obrigatoriamente de ser enviado para incineração ou aterro. Discordando deste desperdício, o cirurgião começou a levar o blue wrap no seu próprio carro para a Entre-Ajuda, uma organização do Banco Alimentar, onde, com a cumplicidade de Isabel Jonet, conseguia reciclá-lo transformando-o em materiais usados para fins sociais: toalhas (só para a Jornada Mundial da Juventude foram mil), sacos e até protótipos de anoraques e sacos-camas.

Apesar de avisar os seguranças do hospital de que estava a fazer uma ilegalidade, na esperança de ser detido e chamar assim a atenção pública para o assunto, Queiroz e Melo, não foi preso, “infelizmente”, como diz.

Daí até hoje, o cirurgião não tem parado de lutar para que, à semelhança do que se faz noutros países, a indústria recupere como matéria-prima as toneladas de blue wrap que todos os dias os hospitais usam e deitam fora.

Com esse objetivo apresentou o caso à Agência Portuguesa do Ambiente que deu luz verde ao assunto e agora só está à espera de uma declaração da Direção-Geral da Saúde a confirmar que este tecido estéril não constitui perigo para a saúde pública, ou seja, que é possível reciclar as toneladas deste material incentivando a ‘economia circular’ e até estendendo-a a inúmeros outros materiais que os hospitais usam e descartam. Este é também o tema do livro que com prefácio de António Damásio, Queiroz e Melo publicou há dois anos: “Cuidados de Saúde e Ambiente. Uma Verdade Incómoda”. Infelizmente, apesar de tantos e tão persistentes esforços, os arrastos do costume arrastam-nos para o costume: burocracias e bloqueios. Parece estúpido não termos ainda algo a funcionar que só beneficia tudo e todos, do ambiente à saúde passando pela economia.

Entretanto, decorreu este mês o 1º Congresso Nacional de Saúde e Ambiente mobilizando mais de mil pessoas de 50 profissões diferentes, entre médicos, gestores de hospitais públicos e privados, cientistas de várias áreas, representantes de ordens profissionais, responsáveis da administração central e local, estudantes e muitos interessados.

Ao longo de dois dias debateram-se os problemas ambientais que afetam a saúde. Desde os que o são já reconhecidamente, como a poluição do ar e da água, o ruído, as ondas de calor e de frio, os agroquímicos ou os novos vetores de transmissão de doenças, até aos que só agora começam a revelar a extensão preocupante das suas  consequências como é o caso dos microplásticos e das nanopartículas.

O cirurgião começou a levar quilos de blue wrap no seu próprio carro para o reciclar transformando-o em toalhas (só para a JMJ foram mil), sacos e até protótipos de anoraques e sacos-camas

Entre outras conclusões, ficou clara a importância e urgência de promover a sustentabilidade em hospitais, centros de saúde e laboratórios farmacêuticos a vários níveis (energia, água, alimentação) e as diversas reciclagens: do blue wrap às pulseiras de plástico e vários dispositivos implantáveis e outros de uso único e, claro, os restos de medicamentos. Estes dizem respeito a todos nós, que os deveríamos entregar nas farmácias, mas a sua recolha não chega a 17%, gerando resíduos tóxicos que vão parar a lixeiras acabando a contaminar a cadeia alimentar. O nosso mais célebre frequentador de farmácias, o PR, bem podia alertar os cidadãos para esta medida simples e altamente benéfica.

Cada vez mais a saúde e o ambiente revelam-se como dois lados da mesma realidade, que que a ciência vem explicando, mesmo contra as mais absurdas e envenenadas negações.

Que seja um cardiologista cirurgião com o renome internacional de João Queiroz e Melo a dedicar tempo, saber e experiência, à promoção de mais um benefício comum tão significativo, deveria pelo menos merecer-nos o respeito e a gratidão, senão mesmo envergonhar os que continuam a achar que a defesa do ambiente não passa de um entrave ao progresso.